Respondendo a Interlocutores – “Tropa de Elite, Ainda?” Parte 2
Pena de Morte:
“Antes de se ter pena de morte, há de se ter pena dos vivos, doutor”. Acredito que era Bezerra da Silva (ou outro sambista do qual me foge o nome, e o senhor Google deixou de apontar) que professou esta maravilhosa frase. Há diversos estudos, mas algumas estatísticas desconstruídas básicas nos ensinam que há uma forte correlação entre a pena de morte e a diminuição e aumento de nada, absolutamente nada. O pensador-economista de “Freakonomics”*, Steven Levitt, já comprovou estes espantosos números com seus estudos mais de uma vez. O mesmo pensador encontrou outras medidas que, seguindo a mesma ciência, estão correlecionadas à diminuição da violência e o aumento da colaboração civil, sim, mas estas são justamente aplicadas em maior volume e qualidade em estados que não usam ou sentenciam a pena de morte.
Immanuel Khant não tinha como saber disso em seus tempos. Nós temos, e não temos a menor desculpa de persistir em soluções ineficientes. Khant dizia que matar um inocente é sempre proibido e, assim, matar alguém que matou alguém é sempre obrigação. Khant diria que “fazer o certo é difícil.” Concordo, mas não precisa ser débil-mental.

*Sinto muito apenas inserir o link em Ingles. O Google brasileiro deixa de apontar muitas coisas que deveriam constar na primeira pagina de procura. Desisti e fui para o americano, pois se nao encontrei o samba da pena de morte, jamais encontraria o artigo do freakonomics, mesmo tendo sido traduzido para nosso idioma.
Respondendo a Interlocutores – “Tropa de Elite, Ainda?” Parte 1
Apesar dos comentários do blog não fazerem jus ao fato, tive alguns interlocutores ativos a respeito da trilogia sobre o filme “Tropa de Elite” que, mesmo não exatamente considerado um novo lançamento, é atualmente transmitido pelos canais pagos da televisão brasileira quase diariamente. Outro motivo de ainda haver algum debate vai muito além da obra cinematográfica que, de certo modo, era o único objetivo da trilogia, mesmo no que diz respeito à análise de valores e paradigmas sociais.
Tive dois interlocutores especialmente notáveis, adentrando territórios que muito me interessam, não como complemento da crítica da película brasileira cuja sequência foi nomeada ao Oscar, mas sim como introdução a uma série de textos que penso publicar há muito tempo.
Uma das críticas me foi feita verbalmente, pelo telefone. Portanto, a transcrevo com as minhas palavras aqui:
Crítica Número 1 – Direitos Humanos Perversos
Nas primeiras cenas da sequência de “Tropa de Elite”, um dos personagens coadjuvantes, o atual marido da ex-esposa de Capitão Nascimento (Wagner Moura), Diogo Fraga (Irandhir Santos), tem uma tentativa frustrada de intervir pacificamente na rebelião penitenciária pela atitude errática do Capitão André Matias (André Ramiro). Ao dar sua entrevista coletiva, culpa o BOPE, a mentalidade de carnificina, e protesta contra os maus-tratos aos presos, o que irritou (ainda mais como foi representado no longa-metragem) muitos que pensam como minha interlocutora. Como representante de uma vertente política que trabalha pelos direitos humanos, este personagem cai em sua desgraça, já que esta acredita que mesmo com as melhores intenções, alguém que advoga pelo bem estar de infratores violentos – como os traficantes do presídio em rebelião – não luta a favor, e sim contra os direitos humanos da sociedade como um todo.
O que nos importa, essencialmente, é entender que esta mentalidade não tem raízes necessariamente no conservadorismo clássico, nem no Brasil, nem nos Estados Unidos, nem em Israel (meus três países referenciais). Lidar com infratores violentos é um dos maiores desafios de qualquer sistema moderno. Em um sistema jurídico ideal, talvez, cada caso seria julgado separadamente, e não haveria generalizações penais, e quem sabe melhor estrutura jurídica e, logo, executiva. Não são os casos. O caos sistemático é avassalador, o que desperta ainda maior furor no debate popular.
Há quem diga que mais presídios solucionariam o problema. Outros, que acreditam que intervir diretamente na base do problema contribuiria à solução da calamidade atual mais eficientemente. Advogam por medidas como reparar nossas escolas, nosso método de ensino, e dar uma chance mais concreta, melhor direcionada, ativamente dirigida a pessoas que vivem em situações de crise, mais do que comumente associadas a nichos de violência urbana. Ainda há outros que advogam a pena de morte para crimes hediondos, e outros que acreditam, piamente, que eliminar todos os criminosos, como fosse limpeza étnica, seria moralmente correto. Muitos advogam por uma melhor infra-estrutura executiva, como melhor e mais volumoso policiamento.
O Sistema Jurídico
Quando falamos em um sistema legislativo no mínimo similar ao atual, mas um sistema jurídico estritamente utilitarista, falamos apenas em um método já parcialmente aplicado em países como a Holanda, que visa não só a punição, mas também a reabilitação eficiente de uma porcentagem aceitável daqueles que cumprem suas penas em presídios. Um sistema jurídico funcional, mesmo nos moldes atuais, já seria tão revolucionário que mal sabemos o quanto isto poderia melhorar a situação atual em si, sem nenhuma outra medida. Portanto, esta, que também é uma ideia a ser discutida, permanece intacta em seu molde original: Um sistema jurídico mais eficiente poderia, sozinho, revolucionar o país. Sozinho, no entanto, ainda apresentaria os dois problemas citados no fim do próximo parágrafo.
Resposta
Se analisarmos superficialmente, todas as soluções do parágrafo anterior fazem algum sentido. Ainda superficialmente, somente um tanto menos, já veríamos como todas as ideias tendem a trazer ainda mais problemas, e todas, caso executadas sozinhas, tem dois essenciais: Ou não são eficientes, portanto tornam-se descartáveis, ou são simplesmente demoradas, o que ainda não solucionaria a situação atual. Vejamos, menos superficialmente ainda, cada qual e seus defeitos imediatos:
Mais presídios
O Brasil precisa, de fato, de mais e melhores presídios. Isto é porque a população cresce desproporcionalmente à nossa capacidade de acompanhar a infra-estrutura, que já foi mal-planejada na esmagadora maioria do país. No entanto, mais presídios são traduzidos em maiores gastos perpétuos ao governo, e logo à população. Outro problema imediato é o ranço popular contra presídios próximos a seus bairros. O comediante George Carlin brincava, “do que eles tem medo, eles acham que o camarada que fugir do presídio ficará no bar local, tomando uma cervejinha? Eu já acho que onde há presídios, há a maior segurança possível. O camarada já pensa duas vezes antes de fazer alguma besteira naquele bairro. A distância pra cana é pouca…” Carlin não conhecia o Brasil…
Existe uma necessidade real no Brasil de se construir mais e maiores/melhores presídios para acomodar uma vasta massa de pessoas presas em cubículos onde um centésimo destas caberia. O que fazer com os presos, no entanto, ainda é problemático. Mais problemático ainda é o que fazer com os livres. Um verdadeiro Labirinto de problemas se amontoa se a solução for sempre construir mais presídios, especialmente em cidades que carecem de hospitais, escolas e bibliotecas públicas, tanto em quantidade quanto em qualidade.
Sempre que me deparo com políticos prometendo mais presídios (algo muito comum nos Estados Unidos), penso no personagem fabuloso do livro de Machado de Assis, (falha grave, a intenção era escrever “O Alienista”, pensando em um e escrevendo o outro, pois acabou saindo “O Grande Mentecapto” originalmente). Atualmente, o número de infratores, acrescido dos não violentos, poderia atingir mais da metade da população brasileira caso o jurídico se tornasse eficiente, e o executivo desse conta do serviço.
Em Breve, “Pelaqui”*
*”Pelaqui” foi descaradamente roubada do amigo Pirata, da “Zine Prta”, no Facebook.
Em breve, a série “Noias, de Todos, para Todos” terá continuidade no Suma. Ainda pretendo inserir uma breve análise do curso eleitoral nos Estados Unidos, como texto de política comparativa, e com a ajuda de Omar Sanchez, empresário e futuro advogado na Flórida, ao sul do país. Além disto, uma nova série de textos vem aí para que o Supra Suma possa enrolar vocês até o fim de 2012, revendo os lançamentos cinematográficos mais recentes, dando notas e fazendo críticas, revelando, sem revelar muito, o que os filmes tratam e como tratam. Original, não?
Enfim, em breve, no Suma Irracional**
**Todos os direitos reservados para o grupo “Os Intensos”, super-poderoso e super-multi-inter-nacional.
“Tropa de Elite, Ainda?” – Parte 3 – Final
Então chegamos ao Capitão Nascimento e o BOPE. No mundo de Nascimento, o usuário de drogas estimula a marginalidade, os maus-tratos, e o assassinato de jovens e crianças. É verdade. Quem compra e vende tênis de marca, aliás, faz mais ou menos o mesmo, seguindo a lógica invertida. Inúmeras grandes fábricas de produtos massificados e populares, como calçados de grife, estão instituídas em países que não se preocupam exatamente com o bem estar de crianças que não encontram oportunidades em um mercado mais justo, e que acabam não podendo recorrer a uma boa educação pela necessidade de suas famílias. Do mesmo modo, muitos adolescentes são assassinados por assaltos de celulares e tênis importados. Isso signifca que comprar algo importado ou mais caro é sinônimo de estímulo de latrocínio?
Parece piada, mas não é: Esta mentalidade é concreta no Brasil, onde muitos acreditam que, se alguém é roubado, assassinado ou estuprado, a culpa é da “bandeira” que a pessoa deu. Aqui, é comum culpar a vítima pelos atos dos criminosos. É comum, como fez certa vez o âncora Ricardo Boechat, equiparar a negligência de um médico em posto de saúde público (que vê cinco ou seis vezes mais pacientes do que mandaria a norma, e isto sei por experiência próxima de convivência com médicos que trabalham em postos do SUS), ao ato do assassino que causou a visita ao médico negligente. É comum aqui, como em países regidos pela lei Islâmica, culpar a mulher violentada por ter usado esta ou aquela roupa “tentadora”.
Portanto, por mais que muitos filmes tentem e consigam retratar a gravidade dos problemas sociais do Brasil, e por mais que o tema já até canse o público geral, de tão divulgado, é fatídica nossa necessidade de resumir os problemas, encontrar culpados e culpar vítimas. Nesse sentido, Nascimento é verdadeiramente brasileiro. Nesse sentido, o filme se aprofunda sem precisar se aprofundar.
O que o personagem Nascimento não quer nem chegar a pensar, explicitamente, é que muitas dessas crianças morrem nas mãos de policiais treinados a atirar primeiro e perguntar depois. A “estratégia” de Nascimento só atrasa um pouco o inevitável. É relativamente “fácil” culpar os outros pelos atos “estratégicos” cometidos por uns. Ainda, a violência não nasceu e não morre com o tráfico de drogas. Milhares de assaltos, assassinatos e estupros que nada tem a ver com essa estrutura ocorrem em todo o Brasil, longe das favelas cariocas, e longe de qualquer outra favela. O Morumbi, um dos bairros mais “nobres” de São Paulo, é considerado um dos bairros mais violentos da capital. Não porque os moradores do bairro em si saiam às ruas se assaltando, matando e violentando, mas porque o ressentimento de classes é muito mais contundente quando as duas compartilham espaços próximos, como no caso de Morumbi, cercado por uma das maiores favelas do Brasil (ou basicamente toda capital carioca, exceto a Barra da Tijuca). Não é o crack o fator comum desses mesmos crimes por motivos distintos, e sim o ressentimento entre classes.
O grande problema da “guerra às drogas” não é só a mentalidade de guerra, algo que, em si, já acomete a causa, mas sim o fato de que, quando se fala em combate às drogas, poucos agem (falar é gratuíto e filosofar é masturbação mental) contra a desigualdade social, que é um dos principais “culpados” da violência e, quando falam em combate à desigualdade social, pouco ou nada falam sobre os valores que recriam tanto ódio mútuo. Pensem comigo: O rico não pode existir para a paz do pobre, e vice-versa? Me parece, no mínimo, uma utopia infantil. Ambos existirão sempre enquanto sempre durar, e é o ressentimento, o ódio, o sentimento negativo que deve padecer, não as classes sociais. (Karl Marx teria um ataque epilético se lesse esta frase).
Para finalizar, a mentalidade do BOPE transmitida no filme (e não muito distante da realidade da mesma), é que “bandido bom é bandido morto”. Não sou nem tão contrário a isso, para o bem de minha máxima sinceridade. Eu também, ressentido e cegado pela raiva, desejo muitos males a quem causa males. Acredito que, quando alguém desmerece o valor da vida alheia, está conscientemente outorgando o valor da sua própria à mesma sorte. Sou contra a pena de morte por dois motivos, mas nenhum deles é por achar que um criminoso hediondo deva permanecer em vida, ou ser reformado, ou eternamente custeado pela sociedade, na cadeia. Meus motivos, nos quais não me aprofundarei, são a ineficiência da pena de morte, mais do que comprovada, causando muitas vezes a morte de pessoas inocentes, e não diminuindo o índice de criminalidades onde ela é aplicada sem que outras medidas, mais importantes e eficientes, sejam tomadas; além disso, o Estado não deveria legislar nem a morte, nem a vingança de ninguém. Tomando como exemplo a situação de Israel no Oriente Médio, e as mais contemporâneas atitudes da hegemonia mundial, os Estados Unidos da América, contra grupos terroristas, entendemos que a violência repressiva não elimina marginais (quem vive às margens, na marginalidade, pela marginalização de massas), e sim os multiplica. Resumindo: Não sou contra a morte de um assassino. Sou contra o uso da violência para reprimir a violência simplesmente porque não só não é eficiente, é ultra contra-producente.
A conduta de Nascimento
1 – Como todo soldado, Nascimento traz a seu campo de batalha seus demônios pessoais. Talvez ele não tenha cometido, como personagem limitado em quatro horas de filmes, nenhuma grande atrocidade em nome de suas próprias ansiedades. Porém, muitos cometem, cometeram e cometerão, porque foram treinados para tanto, e porque carregam seus demônios consigo à terra de outros demônios. Lembram dos massacres em aldeias vietnamitas? E os soldados estadunidenses que mataram muitos inocentes no Iraque? Lembra alguma coisa?
2 – É um total absurdo usar alguém como informante e depois jogá-lo às ruas. Não que nos Estados Unidos os informantes ou as testemunhas estejam seguros da retaliação de quem foi dedurado, mas um problema é a falta de recursos, e outro muito mais calamitoso é a norma, a regra, de se fazer o mais errado possível sempre, e achar que é o mais certo (“Mathias aprendeu a ser um policial” quando estourou os miolos de alguém, por exemplo). Não só desestimulam informantes e testemunhas, mas também criam mais nichos de ressentimento social. Ambos são problemas recorrentes na maioria das sociedades. O que já é difícil, torna-se risivelmente impossível no Brasil. Menciono este problema justamente porque é essencial que a população revoltada tenha o mínimo de estrutura para reagir contra o crime.
3 – O “sistema” existe, e bater de frente com o “sistema” é sempre problemático. O “sistema” é também um “objeto”, composto de indivíduos e ações coletivas de indivíduos. Os personagens de “Tropa de Elite” mostram muito bem como o caos sistemático gera mais caos sistemático, e, novamente, sem precisar dizê-lo, aprofundam-se na sinceridade de suas atitudes, sem utopias, sem querer inserir personagens “diferenciados”, na mentalidade que perpetua o caos sitemático. Ou seja, quando os personagens, mesmo revoltados, seguem agindo de acordo com a mentalidade simplificatória, diminutiva, e com os mesmos valores que sempre geraram os mesmos problemas, exemplificam o motivo principal da ausência de mudanças concretas no curso desse caos.
Conclusão
Nascimento é um personagem tridimensional, completo e fiel a seu caráter (sente remorso pela morte de um “fogueteiro”, por exemplo, mas faz exatamente o mesmo que levou a essa morte com outro “fogueteiro”, demonstrando que ele pode até sentir remorso, mas segue sendo Nascimento). A maioria dos personagens do filme o são, com poucas exceções. O tema é abordado com a profundidade que conseguiram abordar, e acredito que o fazem bem, com ou sem intensão. Como filme, “Tropa de Elite”, tanto o primeiro quanto sua sequência, é realmente bom (diria ótimo se tirassem a narração de Nascimento, que para mim é legenda para burros, e me ofende). Os valores dos personagens do filme, tanto os piores quanto os melhores, é que são extremamente superficiais, como são, de fato, os valores da maioria da população. Querendo ou não, a trama quer conduzir seus espectadores a um cenário que, concreto, tem sua linguagem e suas expressões, mas que filosófico, não diz nada além do “bom senso”, que é excelente para valores como higiene ou conduta no trânsito ou etiqueta social, mas é péssimo para a análise profunda de tendênciais sociais, visto que o universo de observação não tem “bom senso”, e sua lógica é poucas vezes direta. Invertê-la é muito fácil, como vimos em toda a série.
RF
Re-Bem Vindos ao Re-Suma Irracional
Avisei que nossa casa até trupica, mas nunca cai, não avisei? Pois então, cá estamos de volta. A página provisória, esta, será ainda enfeitada e afinada para os propósitos temporários. O temporário, é claro, pode ser para sempre, mas como nada é para sempre, e tudo se eterniza nos enquantos de sua duração, estamos bem. O mais importante é que teremos o arquivo dos textos passados, e seguiremos os novos, as séries, participações e baboseiras da racionalidade irracional.
No entanto, haverá mudanças imediatas, não necessariamente no formato do sítio passado, mas encarnando objetivos diferentes. Antes nos baseávamos nas palavras de um tratado. Nem as palavras foram seguidas, nem o tratado trabalhado. A verdade é que, na megalomania de nossos seres, e nessa era de publicar tudo, muitas vezes sem trabalhar os textos com a necessidade que exigem, eu aqui caí na armadilha, e seguirei caindo. Portanto, chega de meias e más promessas.
A única regra do que possa ser publicado em nossa casa, em nossa Suma, é jamais levá-lo a sério. Ao menos não o suficiente para entender como opinião definitiva qualquer coisa escrita por mim (não falo pelos contribuintes e sócios). Certa então, nem fedendo. Porque, apesar dos textos serem sempre pensados, entendi o quanto não entendo de absolutamente nada o suficiente para sequer ter opiniões definitivas. Aliás, as tenho, o problema é que elas sempre mudam.
O irracional seguirá irracional, e essa sempre foi a graça toda. As opiniões seguirão fortes, e juro que seguirei discordando da maioria de vocês. Para quem minimamente me conhece, isso já não é óbvio?
Blog é coisa de megalomaníaco e ególatra, mesmo. Somos quem somos, essa também sempre foi a graça toda. No entanto, o que o irracional melhor expõe é o quão racionais podemos ser se suspendermos a irracionalidade. Juro que também sempre conversarei com vocês, e assim sempre poderei mudar de opinião. Aqui jamais haverá intolerância de opiniões, mesmo quando houver.
As séries “Noias – De Todos, Para Todos” e o último da trilogia “‘Tropa de Elite’, ainda?” seguem e, além disso, fisgando o gancho do último parágrafo, falaremos um pouco mais sobre a cultura dos Estados Unidos e as eleições presidenciais, com fonte fresquinha (e nada imaginária) da Flórida, no sul do país. Também contaremos, se as palavras forem cumpridas (pisc, pisc), com textos de amigos cada vez mais reais do Suma. Enfim, chega de papinho:
Bem vindos à nova casa!
Abráx,
RF
Voltaremos
Leitores e leitoras queridas/os, farei o possível para que o blog não saia do ar enquanto mudo a hospedagem. Se sair, retorno para seguir as series.
Abrax
Roy
Tropa de Elite, ainda? Parte 2
O Conteúdo
Nunca pensei que o trabalho da polícia fosse fácil. Nunca pensei que fosse justo ganhar uma miséria para arriscar a vida pela sociedade. Já acreditei, como o fóbico Alfred Hitchcock, que o policial é um ser ruim e corrupto inerentemente, mas, mesmo já tendo meus problemas com os modos operacionais das polícias dos países que conheci, descarto a hipótese atualmente. Acreditei – e as notícias diárias só reforçam essa crença – que a polícia brasileira, além de não contar com respaldo governamental justo, é de formação, execução e filosofia incompetentes, porque, simples e calamitosamente, não funciona. A mentalidade policial no Brasil é primitiva, e não falo só da polícia em si, mas de quem ela supostamente deve proteger, e de quem ela protege de fato, ou, para os leigos, “todos nós”. No filme, talvez não tenha sido a intenção falar sobre incompetência ou primitivismo, mas foi um “sem querer querendo” ululante.
O que o diretor de “Tropa de Elite” quer mostrar, ao que parece, é como o “sistema” é corrupto. No primeiro filme, a crítica também é feita aos consumidores de drogas que, segundo o famoso Capitão Nascimento e seu amigo Mathias, são os culpados pelo tráfico. No segundo, a crítica contra o sistema se intensifica, e o diretor explora mais um ímpeto pessoal contra a funcionalidade natural do cotidiano oficial brasileiro. Nada contra as duas ideias, que não estão exatamente erradas. A primeira mais pecaminosa do que a segunda (por ser uma ideia típica de “solução pronta”, ou seja, a lógica falida de que não deve mais haver usuários de drogas e, logo, não haverá mais quem as venda). A segunda, “bom senso” demais para ser considerada sem melhor análise. É surreal acusar o “sistema”, algo invisível, um “objeto” cuja concepção só advém da construção que o indivíduo contribui à sociedade, outro “objeto” (sobre “objetos”, leiam a série “Nóias, de Todos, Para Todos”) distante e sem face.
Vamos ao primeiro argumento:
“Se playboy não comprasse drogas, não haveria traficantes”.
Qualquer economista ou administrador de primeira viagem dirá que o que move o comércio, e a economia, consequentemente, é a demanda e a oferta. Se a demanda é muito grande e o produto escasso, a oferta torna-se cara. Caso contrário, torna-se barata. Acima de tudo, sem demanda, não há oferta, portanto a lógica de que sem usuários não haveria traficantes não é bem equivocada. É simplesmente simplória e até negligente, mas não equivocada.
Caso houvesse a hipótese de não haver usuários, é lógico que não haveria traficantes… de drogas. Porque traficantes de armas, de remédios sem receita, de mulheres ou crianças escravas e de qualquer produto, popular ou não, no mercado negro, seguiriam existindo. À não ser que disséssemos: “Se playboy parar de comprar droga, armas, escravos, mercadoria roubada, remédios sem receita etc., não haveria traficantes.” “Playboy” até compra armas, mas não em peso. Não é o “playboy” que sustentaria uma “boca de armas”. Nem sustentaria um mercado escravocrata, já que “playboy” compra de tudo, celular novo, carro e moto zero kilômetros, roupas de grife, e até cocaína e maconha, mas é raro ouvir do“playboy” dono de escravos.
Há diversos fatores que incitam a existência do mercado negro. Entre esses fatores, há a genética, o ambiente, a falta de oportunidades econômicas, as mazelas sociais e o condicionamento psicológico de indivíduos (dispor-se a matar ou assaltar requer um estado da psique específico, caso contrário todo pobre seria criminoso, e não é nada assim que o eixo gira). Pode haver centenas de outros fatores, mas a demanda das drogas me surpreenderia muito se estivesse entre estes. O mercado negro vende o que o mercado livre não vende, e ponto final. Ele não existe porque existe drogados, nem “playboys”, nem favelas. Ele existe porque oferece produtos ou inexistentes no mercado livre, ou vendidos de modo mais conveniente e barato. Ele existe como alternativa ao mercado livre. Portanto, não adiantaria que todos os ricos parassem de usar drogas, mesmo porque as favelas que ainda são regidas pelo tráfico, são regidas por duas máfias: A policial, e a marginal. E máfia lucra com dois ítens básicos: Juros absurdos, e proteção. Mesmo sendo as drogas o principal produto dos traficantes, o mercado negro das drogas é o mesmo das armas, dos escravos, e dos produtos roubados e revendidos, entre tantos outros. É muito mais lógico concluir, portanto, que, com a ausência da demanda de drogas, a oferta seria de qualquer outro produto, vendido no mesmo mercado. E sempre compra quem pode, portanto, sempre haverá produtos “compráveis” no mercado negro, e sempre haverá “compradores”.
O ressentimento contra os mais ricos tem também sua lógica. Além da mentalidade ser intrinsicamente fundada na cultura comportamental brasileira (de ressentimento mútuo entre as classes), ela também advém de dois quesitos: O argumento de que a polícia funciona bem só aos ricos, e age contra a classe média e baixa, o que faz com que muitos conclúam que o rico, que causa a repressão aos demais, é responsável pela fomentação daquilo que quer reprimir. O argumento de que os ricos, que não vivenciam a violência diária das favelas, se aproveitam da existência dessas mazelas para usar drogas, antagoniza esse comportamento ainda mais. No entanto, ambos são superficiais.
É fato que quem mais “faz rir”, mais “ri” no Brasil. É fato que a polícia se distribui como bem entende, onde e como melhor lucra. É fato que a repressão de classes existe, e quanto maior o índice de desigualdade social (no qual o Brasil é campeão mundial quando não ocupa as demais posições do pódio), maior a repressão e menos recursos para combatê-la. No entanto, não são os ricos que fomentam o mercado das drogas. São os ricos, mas também são pessoas de classe média, pobres, empresários, caminhoneiros, baladeiros, médicos, faxineiros…
A demanda pelas drogas não é privilégio de classes. Diriam, então, que só usa drogas quem tem dinheiro para comprá-las. Claro, mas também fabricam drogas acessíveis a todos. Se fosse tão simples, não teriam inventado o crack, a meta-anfetamina, a queratina, e tantos outros tóxicos populares. O mercado das drogas, mais até talvez do que qualquer outro mercado, é capitalista, e o mote principal do capitalismo é tornar seus produtos acessíveis às massas, salvo em casos específicos de produtos luxuosos, como carros da marca Ferrari e Lambourghini, que não são vendidos nem comercializados às massas, e sim ao segmento mais rico da população mundial.
No mais, se antes apenas os ricos podiam ter casa de “material” (concreto), hoje muitos podem; se antes só os ricos possuíam carro, hoje, cada vez mais pessoas possúem; se antes só o rico tinha uma televisão a cores ou computador, hoje muitos podem adquirí-los e, exatamente assim, se antes só os mais abastados podiam comprar cocaína, hoje todos podem comprar seus derivados, e outras drogas estimulantes de efeitos similares, mas muito mais baratas, algumas até de fabricação caseira. Pior que existe uma amarga verdade na afirmação de que só usa drogas quem tem dinheiro para comprá-las: Por isso, tanta gente morre no mundo por doenças cem por cento preveníveis e curáveis, pela falta de dinheiro que impossibilita a compra e uso de remédios “simples” e massivamente disponíveis.
Logo, o uso das drogas não sendo privilégio de nenhuma classe, dizer que uma classe é mais responsável pela multiplicação do uso das drogas do que as demais é uma falácia. Doce falácia, claro, entendo bem que seja assim, uma falácia ressentida. Todavia, pelos dados que tenho, caso os mais ricos deixassem de usar drogas ilícitas, os traficantes ainda sairiam com bom lucro das vendas que realizam tanto em suas regiões, como em outras, a todos os tipos de pessoas, de todos os tipos de classes.
Por outro lado, mesmo havendo repressão sistemática das classes menos abastadas, ela não existe para acabar com a venda e consumo de drogas, e sim para estimular a venda e o consumo de outros produtos, ou para desestimular o choque cultural, a indignação social, a capacidade democrática das classes de valores distintos, e motivar valores específicos, entre outros mil motivos que não inclúem a tal proibição. Não é tanto questão ideológica quanto social, capitalista, psicológica e cultural.
Quanto à visão romântica que muitos “bondosos” tem da favela, digo: “Por favor, não encham o saco. Nem romance é romântico. Ninguém só ‘quer ser feliz’ e viver na sarjeta onde nasceu. Ninguém gosta de viver mal. Poucos sãos tem orgulho de viver em zona de guerra, e o orgulho é geralmente distorcido, advindo da própria sistemática da violência. Miséria, falta de saneamento básico, educação, oportunidades econômicas, infra-estrutura e civilidade não são nada românticos. Mudem a causa ao vegetarianismo, ou sejam realistas.”
Noias – Adendos
Três adendos importantes:
1) Se não ficou claro, não sou psicólogo, muito menos psiquiatra, não quero ser, não sei se sequer teria o menor talento ou verve para tanto, e não sei de psicologia além do que escuto, convivo e leio, ou seja, cru e nu, com minha concepção e ocasionais dúvidas tiradas com os devidos profissionais (que é meu ambiente de vida, não só de trabalho). Não analiso, vejo, ou entro em contato com as histórias dos pacientes desses e outros profissionais. Não tenho casos de estudo, grupos controlados, além daqueles sobre os quais leio e cito. Portanto, posso muitas vezes errar em meus conceitos. Quando tenho o selo de aprovação de um profissional, o uso. Quando não, estou pensando com as informações que tenho em mãos e na ponta dos dedos. O Suma é um espaço para a masturbação mental (sim, bebês, eu gosto desse conceito), associações livres de pensamento e, se alguém sair daqui com opinião formada, conselho, eu não confiaria. Querem saber mais sobre o tema e não são da área? Pesquisem. Sempre haverá outras opiniões, e as fontes são ricas. Garanto que sempre perguntarei aos devidos profissionais se escrevi algo errado e, quando o fizer, retratarei.
2) Não quero dar a entender que a timidez leva à fobia social, e que a fobia social leva à sociopatia. Se aprendi alguma coisa útil convivendo com profissionais da área da psicologia, é que cada pessoa tem seus defeitos, suas idiossincrasias e, sim, disfunções e funções psicológicas, mas que pato é pato, pata é pata, e cada boi tem seu nome próprio fora da boiada.
A) Fobias são, geralmente, sintomáticas da ansiedade. Quando uso o termo “extremo”, refiro-me a uma somatória de fatores que levaria dado indivíduo a essa extremidade, mas essa somatória é relativa, subjetiva, e variável de pessoa a pessoa.
B) A timidez advém da ansiedade (expectativa negativa) em ambiente social/público. Um tímido é necessariamente ansioso? Acredito que sim, mas os graus de ansiedade são múltiplos e relativos, subjetivos e variáveis de pessoa a pessoa.
C) A esquizofrenia e a psicopatia/socipatia, são condições bastante diferentes uma da outra, e das acima citadas. Como dito e referido no primeiro texto da série, minha concepção da “loucura” depende de uma somatória (relativa, subjetiva e variável de indivíduo a indivíduo) que necessariamente inclui a falta de sono e a psicose (um dos sintomas da esquizofrenia, especialmente conhecida pela sua manifestação em alucinações e concepções de realidades paralelas, ou da bipolaridade mania, na qual o paciente não está permanentemente louco, mas pode estar louco temporariamente, quando em surto maníaco). É possível que a neurose leve à esquizofrenia ou à sociopatia, mas como, quando, em quais circunstâncias etc., só se fosse profissional da área e se tivesse a menor experiência pessoal com diagnósticos. Sei da possibilidade, mas é só o que sei.
D) Também entendo que a psicose e a ansiedade, como acima dito, são sintomas, e que a ansiedade é tão comum na humanidade como o stress, e que a psicose pode fazer parte da maioria dos indivíduos em determinados momentos de suas vidas, mas que em si não caracteriza um esquizofrênico. A neurose, nesse sentido, tendo como sintomas principais a ansiedade (e, em seus extremos, seus extremos), pode ser paralela a outras disfunções, mas novamente:
E) Para deixar mais claro, pois sei que dou minhas voltas: Apesar de conhecer, como no parágrafo 1 acima descrito, o que conheço sobre as disfunções que nomeio, meu parecer não é nem remotamente profissional. Meu raciocínio só traz os extremos como comparação aos não extremos, que constitúem a maioria de nós, todos padecendo de alguma ou outra disfunção psicológica. Ou seja, você não vai se tornar esquizofrênico só porque é ansioso (muito provavelmente você é neurótico, como a maioria de nós, e cabe a você saber seu grau de neurose através de consulta com o profissional adequado). Você não vai se tornar sociopata só porque tem fobia social. Mas há um ditado judaico que diz que há de se fazer “cercas” em torno de nossos limites, para que nunca cheguemos perto deles. Só um toque.
3) É preciso distinguir entre as disfunções e não misturar as cores, porque esse arco-íris é complexo demais, e pouco feliz. Aqui vai apenas uma breve ilustração do que cada disfunção citada nos textos significa:
Neurose – Há diversos diagnósticos para a neurose, que é geral e superficialmente caracterizada pelos seus sintomas de: Ansiedade, histeria, fobias (extremos da ansiedade), depressão, borderline (personalidade fronteiriça), etc.
Sociopatia – Dificuldade ou incapacidade de sentir empatia pelos demais. Pode ser seletiva: Um racista é sociopata contra pessoas de outra raça que não a sua, por exemplo. Não requer atuação (não só porque a pessoa é sociopata, ela fará algo concreto contra alguém). O socipata tem a capacidade de sentir culpa, no entanto, mesmo quando comete algum ato concreto contra alguém.
Psicopatia – O mesmo que a sociopatia, porém nesse caso o indivíduo não sente culpa pelo que faz. O diagnóstico, além de subjetivo e relativo, depende das somatórias acima citadas. A diferença principal entre um psicopata e um sociopata, no entanto, é que o psicopata geralmente não sente absolutamente nada de diferente quando comete uma atrocidade. O psicopata não necessariamente atuará e fará algo concreto contra alguém (exceto, talvez, a manipulação, falsa empatia e mentiras, comuns no comportamento psicopata). Ambos sociopatas e psicopatas também são caracterizados pelo narcisismo inerente. O perfil da personalidade do ser “político”, como já estudado no passado, por exemplo, é similar, quando não idêntico, ao do ser “psicopata” (manipulação, mentira, falsa empatia etc.).
Esquizofrenia – É caracterizada pelos seguintes sintomas principais: Alucinações (psicose, surto psicótico inclui alucinações, como já mencionado); desorganização da realidade interna (engano), ou seja, forma desconexa de interpretar a realidade (paranoia, medo, ideias desconexas ou absurdas, bizarras etc.); dano cognitivo (associação desconexa entre ideias e palavras, não compreensão do ambiente ao redor etc.); e os chamados “sintomas negativos”, ou seja, que ao contrário dos primeiros, diminúem ou modificam o modo operacional da fisiologia do indivíduo, manifestados em diminuição ou ausência de sentimentos, diminuição ou ausência de prazer, apatia, comportamento inapropriado (rir em enterros, por exemplo), e outros detalhes que melhor compreendidos seriam por pesquisa pessoal e/ou consulta com o profissional.
Acima de tudo: Procure um médico para o diagnóstico de seus sintomas, se sentir necessidade. Nem mesmo os sítios oficiais da área da psicologia/psiquiatria tem como fornecer suficientes dados para o diagnóstico à distância.
Abráx,
RF
PS: Quando pesquiso algo sobre psicologia, uso minhas fontes pessoais mais do que a literatura da rede, mas este site me pareceu pertinente para quem quer saber mais (sem pagar uma consulta, para fins de pesquisa, e somente): Dra. Shirley de Campos.
Tropa de Elite, ainda? Trilogia sobre Obra e Teor – Parte 1
No início de 2008, pretendi escrever um texto sobre o filme “Tropa de Elite”, que fazia sucesso à época (foi lançado em 2007), e sobre o qual se discutia vastamente pelas redes sociais, blogs, e qualquer convenção de brasileiros em fundo de boteco do exterior. Pois, vivia fora do Brasil naquela época. No Brasil, fui leitor assíduo do finado Pasquim e, pela minha vivência e pelos tantos argumentos que encontrava nos blogs que frenquentava, de ideologia similar, adquiri uma certa, digamos, “consciência social” (como falam no filme), antagônica à mera noção da existência de um Nascimento. Em minha lógica, vangloriar um policial violento por ser honesto, ou por participar de uma organização com índices baixos de corrupção, era inconcebível.
Desde criança, entendo que a privação das necessidades mais básicas deforma o caráter humano. Portanto, a repressão ao crime em favelas e regiões mais pobres, e a não repressão dos crimes organizados e de colarinho branco, sem falar na corrupção social e política, eram, para mim, as maiores provas de que a política brasileira policial é falida.
No entanto, naqueles tempos não tinha, ainda, assistido ao filme. Recentemente, assisti ao segundo, não por opção, mas porque me deparei com ele quando liguei a televisão e não consegui me retirar de frente dela. Só depois assisti ao primeiro. Não poderia escrever sobre o filme sem tê-lo visto e, mesmo querendo fazê-lo (taurino descrente de signos e teimoso que sou), fui convencido do oposto. Minha opinião era tão forte, que sentia nem precisar saber o enredo todo para tirar minhas conclusões. Se tivesse escrito à época, mesmo se assistisse ao filme, seria uma experiência totalmente diferente da proposta desta trilogia.
O fato era que não queria assisti-lo. Não gosto de me expor à violência, nem em filmes sobre o holocausto, nem sobre violência urbana, nem qualquer outra espécie. Não significa que já não tenha assistido a obras desse teor, nem que não tenha gostado. Uma das produções cinematográficas que mais me influenciaram no pensamento social foi a venezuelana, “Secuestro Express”, extremamente violenta. Antes do “Tropa”, assisti a “Cidade de Deus”, “Carandiru”, “Estação Central do Brasil” e outros brasileiros que também encenam a violência urbana e social com seus todos requintes cruéis. (Nota: Para entender melhor as questões abordadas por todos esses filmes, recomendo o curta-documentário de Marcelo Masagão, “Um Pouco Mais, Um Pouco Menos”*. Nenhum desses chegou perto de dizer o que diz esse curta). “Tropa”, entretanto, me parecia pretender mostrar a visão de que é correto matar, maltratar e torturar criminosos, algo que me fazia sentir nojo, do qual era absolutamente contrário.
A violência ainda me enoja. Me enoja hoje, aliás, mais do que nunca. Entretanto, com mais conhecimento de Brasil, do mundo, da política social e sociologia, e depois de algumas experiências de vida, quando assisti aos dois “Tropa” pude analisar com mais frieza tanto o conteúdo como a obra artística. Foi bom tê-lo assistido hoje, em meu atual contexto na sociedade brasileira. Adiante, uma análise rasa da obra e pouco menos rasa do conteúdo:
A Obra
Excelente filme, mais do que recomendado e, nesse sentido, acredito que seja exemplar. Há ainda a necessidade da narração (para mim, muito irritante, demonstrando, por parte da direção, desconfiança e medo de que o público não entenda o que assiste, relegando a linguagem visual do cinema à linguagem verbal do teatro), e entendo e até concordo com as críticas à exploração interminável do mesmo tema, em diferentes tramas, que tanto atormenta e envergonha o país. Por que não fazer mais filmes sobre a vida boa brasileira, seus bons valores, boas pessoas, bons causos, etc.? Argumento válido, mas nada realista. Filmes são produtos e precisam de plateia: Violência vende. A realidade brasileira pode não ser só essa, mas é muito essa também, portanto a reclamação mais me parece negação. Como obra cinematográfica, talvez sejam os dois filmes brasileiros que melhor retrataram o papel que lhes coube. Isto sobre o filme, como filme, e só. O conteúdo apresentarei na segunda parte da trilogia.
*”Um Pouco Mais, um Pouco Menos”:
Nóias, de Todos, para Todos: Segunda Parte: Fobia Social
Antes de mais nada, gostaria de render um acréscimo ao texto passado. Nele, colocamos três ítens de análise de expectativas, e logo os comportamentos condizentes com esses ítens (sentimentos: esperança, ansiedade e lógica, o que de agora em diante chamaremos de objetividade). O adendo:
Não só porque sentimos algo, agimos como sentimos. Há uma frase de Dr. LM Frenkiel que diz que “há de se fazer o bem mesmo estando/sentindo-se mal”. O ítem “ação ou reação” deve, portanto, ser acrescentado. A “reação” tratará de nosso reagir ao sentimento (atuar de acordo com o mesmo), e a “ação” passa a significar, aqui,nossa atitude não correspondente ao sentimento, ou até contrária ao mesmo.
Fobia: Auto-Imagem – Fobia Social: Timidez, medo do que pensam os demais, dificuldade de enfrentar o “outro” (chefe, subordinado, pessoa sexual/romanticamente cobiçada, etc.), etc.
Objetos: O “outro”. O “eu”.
A Fobia Social será bem descrita nas palavras de GJ Ballone*, nas citações tiradas de sua publicação sobre fobias, em geral. Descartei aqui os parágrafos sobre os tratamentos, porque fogem do escopo de nossa proposta. Entretanto, adiantamos que os objetos de nossas expectativas são, simplesmente, nós e os outros.
A separação é melhor acentuada na filosofia de Michel Foucault, que começa seu livro “A História da Loucura na Idade Classica”** comentando nosso relacionamento com o “outro”, o intolerado, desde leprosos a quaisquer outros “outros” alienados pela sociedade (não só da sociedade). O “outro” que alienamos, ou assim argumentaria Foucault, por motivos distintos, é objeto de nosso relacionamento imediato quando falamos de fobias sociais. O “outro” que não se aproxima de nós é o mesmo objeto, porém visto sob ângulo diferente. Aqui um pequeno parênteses:
Para melhor entender as perspectivas acima citadas, que se repetirão pela série, seria interessante traçar um paralelo com os sonhos. Psicologicamente, há dois modos de se encarar o relacionamento que mantemos com os objetos de nossos sonhos. Podemos encará-los como se estivessem vindo a nós (como um ente querido já morto, que vem do além visitar nossos sonhos), ou como se nós estivéssemos indo a eles (no caso, nos deslocamos mentalmente para projetar a imagem do ente querido falecido). Portanto, quando afastamos o “outro” podemos nos guiar por esses dois paradigmas: Pelo primeiro, nós conscientemente nos afastamos do temido/rejeitado etc. “outro”, e pelo segundo, o “outro” se afasta de nós por não querer-nos. Em ambos, a visão do “outro” pode ser severamente deturpada.
O “Eu”
Começamos a falar do “eu” com a descrição dada por Ballone à:
“Fobia Social, na qual o horror é de sentir-se objeto de observação e avaliação pelos outros como, por exemplo, falar em público, escrever diante da observação dos outros, comer em público, etc.”
A fobia é necessariamente um caso clínico que advém, geralmente, de ansiedades e depressões. É um de nossos extremos, mas antes dele, temos alguns estágios de relacionamento com os demais distúrbios:
A timidez pode ser inofensiva, uma idiossincrasia de nossas personalidades, mas dá sinais de um sentimento de inadequação ao ambiente externo. Há inúmeros graus de timidez e, em muitos casos, as pessoas são sempre tímidas em uma ou outra ocasião específica, como falar em público ou, o que é mais raro, posar frente a uma câmera filmadora. Na timidez social, no entanto, onde o indivíduo sente esse “horror” acima mencionado, existe uma série de mecanismos internos atuando e justificando um medo inconsciente. O “eu” sente-se inadequado e julgado pelo “outro”. O “outro” pode ser o mais vil dos vilões ou o mais nobre dos heróis, mas sua imagem é necessariamente deturpada. Por que, afinal, temer a convivência social em uma festa de família, ou no colégio, ou no local de trabalho? O“temor” pode ser justificado, e para efeitos desta seção, a justificativa relacionada ao objeto “eu” é que o “outro” é ou maior ou menor do que realmente é, assim desqualificando e desmerecendo qualquer espécie de contato com o “eu”. Para nossos efeitos, o “eu” aqui é menor do que “outro”, seja qual for sua natureza em juízo de caráter.
Ballone prossegue:
“Na Fobia Social a pessoa é incapaz de conversar com pessoas supostamente diferenciadas, como o chefe, por exemplo, ou trocar opiniões com os colegas de trabalho, expor suas idéias numa reunião.”
E ainda:
“A Fobia Social é o medo patológico de comer, beber, escrever, telefonar, enfim, de agir diante dos outros com risco de parecer ridículo ou inadequado. Em casos extremos, pode resultar em total isolamento. A principal característica dos fóbicos sociais é a ansiedade antecipatória, mal estar que aparece só de pensar na necessidade de falar numa reunião marcada para daqui a três semanas, de receber uma visita, de ter que ir a um casamento…”
Novamente, o caso do fóbico é o extremo, mas há ainda casos mais amenos de nosso relacionamento com o objeto “eu”. Quando tememos “o que o ‘outro’ pode chegar a pensar de mim”, ou seja, quando formulamos nossa lógica comportamental através do que pensamos ser o julgamento externo, estamos atuando as minúcias dessa fobia. Nesse caso, o temor não é ter um contato social, mas perdê-lo, mesmo não tendo propriamente um contato social adequado. Esse comportamento se expressa quando sentimos, por exemplo, “vergonha alheia” de alguém, nesse caso objeto diferente do “outro” que chamaremos aqui de “sociedade”. Trata-se, a modo singelo, de escolher qual “outro” mais importa, se o “outro” de quem sentimos agora vergonha, ou o “outro” que confere a “sociedade”, o “alheio”, o qual originalmente não queremos decepcionar. As questões básicas são: Por que temos medo de decepcionar? Por que temos medo de decepcionar o “outro”? Por que temos medo de decepcionar esse “outro” e não outro “outro”? Qual é nosso relacionamento com a “sociedade”? Temos uma vida social e tememos perdê-la, ou queremos conquistar uma vida social, mas nos sentimos inadequados a fazê-lo? Se não tememos decepcionar ou perder nossa sociedade, e se não nos sentimos inadequados, por que nosso comportamento em sociedade é acanhado, ou seja, como justificar o comportamento?
Vejam que há mais questões do que respostas, mas a ideia original da série é questionar mais do que responder, e as perguntas são para uma auto-análise de vocês, leitores amigos e leitoras queridas.
O “Outro” e A Insanidade
Convivendo com um psiquiatra (sim, é das profundezas desse baú que vos escrevo), pressinto que a “insanidade” como é vista atualmente não se trata apenas do comportamento inadequado de indivíduos, mas de seus sofrimentos e de suas reações perigosas ao mundo externo. Todavia, Michel Foucault traçou a filosofia de que o insano, o doente, é sempre assim considerado pelas “forças maiores” da sociedade. As “forças maiores” podem ser as leis de bando, a aristocracia, os donos das grandes corporações, o governo, a mídia, e tantos outros culpados-em-voga dos males sociais. O que importa é que nós sabemos, na mera introdução à sociologia, que nós agimos em bandos, movidos por algo (por muitos “algos”, ou seja, muitos objetos), e que para Foucault esse algo (“algos”) é o definidor do “outro”, a quem a sociedade sempre ou descarta, ou quer tratar, curar, reprimir ou isolar.
Em casos extremos, o ódio perpetuado pelo “outro” gera genocídios, e em casos mais modernos, a caça ao “outro” significa que um segmento de nossa sociedade não tem os mesmos direitos que os demais segmentos, por ter opção sexual diferente. Não são “outros” novos, mas cada geração tem “outros” mais evidentes. O livro de Foucault começa na Idade Média, argumentando que a tendência do descaso ao “outro” iniciou-se desses tempos, do relacionamento com os leprosos. Mais a fundo, o “outro” de Foucault também se resume aos excêntricos, àqueles que mantém culturas diferentes da classe dominante (como os judeus na Alemanha pré-holocausto, ou os imigrantes na Europa, ou em muitas regiões do globo), e se transferirmos sua filosofia à era moderna, podemos incluir tatuados, emos, góticos, cabeludos, mulheres que não usam saias ou burcas (em todas as religiões monoteístas ou não), estudantes, crentes, ateus e nem caetera.
Nesta seção lembramos vocês que a fobia extrema também é derivada de nossa perspectiva negativa do “outro”, e nossa transferência ao “outro” de males que certamente mais nos afligem do que advém do objeto temido. Aqui podemos chegar ao extremo da fobia social de Ballone, mas, o pior extremo é a psicopatia, a desumanização do “outro”, algo que não é mais considerado fobia (nascida de ansiedades e depressões), mas sim sociopatia, caracterizada pela “dificuldade de sentir empatia” pelo “outro”. Como potencialisamos isso é o que nos separa não só do esquizofrênico, portanto, mas também do psicopata.
Nós lidamos com ambos extremos em nossos cotidianos, porém às minúcias, quando temos medo de pessoas que “parecem” ameaçadoras, ou quando mantemos alguma espécie de preconceito, algo do qual ninguém parece estar livre. Quando tememos paquerar alguém, quando tememos encarar nossos chefes, quando não sabemos como conversar com um grupo de pessoas, quando nos acanhamos em locais públicos, nós estamos criando, pouco a pouco, um mundo paralelo, recheado de nossos objetos, a maioria assustadores – seja pela beleza ou pelo horror – e, principalmente, ameaçadores. Os extremos ou nos debilitam na jornada da vida, que é asfaltada de outras pessoas, ou nos tornam ameaçadores às mesmas.
Portanto, podemos lidar com nossas expectativas quanto ao “eu” e o “outro” das seguintes maneiras. Veja em qual você, leitor, ou você, leitora, melhor se encaixa na maior parte de sua rotina:
Esperança: Tanto “eu” quanto o “outro”, nesse caso, são bem vistos.
Confiram esse trecho, do Blog do Além (recomendadíssimo), na suposta voz da falecida Clarice Lispector, a reclamar de citações deslocadas usando seu nome nas redes sociais:
“Em meu livro A Descoberta do Mundo há a passagem de uma crônica que diz: ‘Por que deve ser o nosso inimigo completamente mau, ou a vítima completamente boa? Ambos são criaturas humanas, como o que é bom e o que é mau. E creio que se apelarmos para o lado bom das pessoas teremos êxito na maioria dos casos’.
Essa não era minha opinião. Apenas a reprodução da fala de uma entrevistada do programa da BBC da Inglaterra, na Hora das Mulheres, sobre suas experiências como prisioneira de guerra. Minha opinião, contrária, vinha a seguir: ‘Sei o que ela quis dizer, mas está errado. Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo’.
Um historiador do futuro que resolva estudar o mercado de literatura brasileira do início do século XXI, usando como objeto de análise apenas as redes sociais, há de concluir que eu e o Padre Marcelo somos a mesma pessoa.”
A entrevistada mantinha a postura de uma esperançosa, nem tanto em relação a seu “eu”, que bem pode ser vítima de algum complexo, mas em relação ao “outro”. Já Clarice, segundo o texto, parece ter mais a posição objetiva, mas também mostra resquícios de ansiedade.
No modo de esperança, o narcisismo elevado, ou o que chamamos de false-self (uma imagem frequentemente autoritária que podemos projetar para esconder nosso complexo de inferioridade), pode estar escondido na esperança de que nosso “eu” nunca fique em cheque. Pelo lado do otimismo, tanto encarar o “outro” como algo inerentemente positivo, ou nosso “eu” da mesma forma, são, na maioria dos casos, sentimentos positivos (eróticos, ou seja, construtivos). No entanto, há vezes que nosso “eu” precisa, digamos, “levar uma bronca”, e que deve mesmo haver desconfiança do “outro”.
Ansiedade: Do “outro” só se pode esperar o pior. Pode ser o pior julgamento de um “outro” melhor, ou a irritação incômoda do “outro” pior, mas sempre o pior. Em estado de ansiedade (muitas vezes gerada pela depressão), criamos medos que, em outros extremos, podem bem nos tornar sociopatas.
Nesse mesmo estado, podemos diminuir nosso “eu”, viver com medo, isolados ou não do mundo externo. Como vocês bem devem ter percebido, a fobia social é a base da agarafobia, em muitos casos. Para verificar nossa ansiedade, basta conferir quem tememos e por quais motivos, e quais circunstâncias mais nos incomodam em sociedade, e por quê. Acima de tudo, como veremos abaixo, o importante é como nos comportamos mesmo sentindo estas ansiedades.
Objetividade: Há no “eu” ideias brilhantes, outras nem tanto. Duvidar de nós mesmos parece ser o repetitivo “caminho do meio” aristoteliano. Não que precisemos viver em dúvidas. Precisamos de certezas, é óbvio, mas acima de tudo, precisamos entender que não é que não sejamos perfeitos e sim, somos modelos vivos de imperfeições ambulantes. Devemos refletir sobre nossos “eus” para que possamos criar um paradigma objetivo deles, e colocá-los em cheque quando necessário. Assim pensa o objetivo quanto ao “eu”. Na mesma objetividade, não temem o “outro” que não precisa ser temido, mas tomam precauções. Há, de fato, “outros” perigosos, e seja por quais motivos, há locais onde esse perigo parece mais iminente. Portanto, nosso quarto ítem:
Ação ou Reação: O ponto da série é que todos sofremos de ansiedades (quando já não somos psicóticos ou psicopatas). Em nossas expectativas, aliás, a neurose parece até necessária, bem como a esperança, que também faz parte da maioria de nossos paradigmas. Não importa, logo, se você sente a ansiedade, se você sente vontade de se penalizar pela sua percepção de seu “eu”, de modo a não crescer, mas permanecer estagnado em sua jornada. O que importa é o que você faz com esse sentimento. Se a esperança rege seus dias, há grandes chances de que você seja uma pessoa feliz e, desde que isto não prejudique os demais, ser feliz é nossa meta. Caso contrário, e se da esperança também houver sintomas de amor quiçá exagerado pelo seu “eu”, ou uma visão demasiadamente “sacra” do “outro”, aqui também vale sua atitude, sua ação ou reação. Seremos objetivos quanto ao “outro” que tememos ou o “eu” que repudiamos, ou quanto ao “outro” que amamos e ao “eu” que idolatramos, ou apenas reagiremos aos nossos sentimentos? A resposta a essa pergunta provavelmente define seu paradigma comportamental, o que lhe separa, senhor, e lhe distingue, senhora, de esquizofrênicos e psicopatas.
RF
* Ballone GJ -Medos, Fobias & Outros Bichos in. PsiqWeb, Internet – disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005
** “A História da Loucura na Idade Clássica”, direitos reservados à Éditions Gallimard, 1972, direitos na Lingua Portuguesa reservados à Editora Perspectiva, S.A., São Paulo, 1978.











